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CALDEIRADA DE TARRACOS

Da importância d'arraia-miúda no resultado desta enorme caldeirada

CALDEIRADA DE TARRACOS

Da importância d'arraia-miúda no resultado desta enorme caldeirada

A história de uma capoeira portuguesa

Jonas, 22.03.15

Um simpático casal de nacionalidade Alemã, em viagem de recreio pelo nosso país,ficou de tal forma apaixonado pelas paisagens, o clima, a simpatia das nossas gentes, a gastronomia, os vinhos e... por aí fora, que tomou a decisão da sua vida.

Adotar Portugal como porto de abrigo e ao mesmo tempo concretizar um sonho antigo.

Em três tempos compraram uma herdade enorme, com um solar antigo e uma imensa manta verde atravessada por um ribeiro de água límpida e fresca.

Um verdadeiro paraíso.

O casal, de uma simpatia contagiante, aliás como acontece com os estrangeiros de meia idade, cedo cativou os habitantes da povoação próxima, gente simples e prática, que logo tratou de lhes 'aportuguesar' os nomes.

Eram então eles, o sr. 'Shuba' e a sra. 'Mercas', o simpático casal Alemão que veio trazer alguma agitação ao pequeno burgo.

Para erguer o projeto que tinham em mente, e que era o de edificar várias capoeiras espalhadas estratégicamente pela herdade, contrataram mão de obra e opiniões locais.

Toda a povoação andava entusiasmada com a ideia do casal.

Passado pouco tempo, e depois dos alojamentos estarem preparados, começaram a chegar os seus ocupantes.

Era ver toda a gente de boca aberta. Nunca por aquelas terras se vira tanta passarada.

- Nem quando cá veio aquele circo, p'raí há uns cinco anos e que trouxe aquele papagaio que dizia palavrões - lembrou o 'Xico da pistola', cuja alcunha ele ganhou, por ter sido o último habitante do lugar a ter  feito uma missão na guerra do Ultramar.

A agitação era enorme, e a pouco e pouco a bicharada lá foi sendo acomodada nos novos aposentos.

Era um espetáculo lindo de se ver. Numa capoeira, faisões exibiam as cores das suas plumagens, noutra, os pavões deliciavam a vista de quem os contemplava, com o esplendor dos seus leques multicoloridos.

Mais à frente, a capoeira das araras, exibia um arco iris de penas brilhantes. Um pouco mais abaixo era o território dos papagaios, e ainda mais adiante os tucanos e outras aves exóticas.

Era um deleite passear naqueles jardins.

O sr. 'Shuba' e a sra. 'Mercas', estavam orgulhosos da sua obra. Aquelas capoeiras exibiam a "fina flor", ou melhor , a 'fina plumagem' desta classe das aves exóticas.

Tudo parecia perfeito até que a 'Ti Maria do candeio', - parece que nas aldeias toda a gente tem alcunha - que deve este apelido ao facto de ter a responsabilidade de acender uma luz no cemitério nas noites de lua cheia, para guiar as almas, não vá o Diabo tecê-las, reparou num pormenor interessante.

No meio daquela bicharada tão exuberante, faltava a presença de uma capoeira bem portuguesa.

O sr. 'Shuba' e a sra. 'Mercas', ficaram constrangidos com a gafe. Pediram desculpa pelo lapso e logo nomearam uma comissão para os ajudar a remediar a situação.

 A 'Ti Zulmira cantadeira', por ser a guardiã das tradições antigas; o 'João galinha', por ser o melhor assaltante das capoeiras locais, o 'Manel sarrafo', reconhecido carpinteiro, e a já referida 'Maria do candeio', foram as pessoas nomeadas  para ajudar o simpático casal a erguer a capoeira portuguesa.

Não foram precisos grandes rigores de traços, que isto no que toca à coisa portuguesa, em cima do joelho é o que basta, e para acomodar a bicharada nada de muito complicado foi necessário.

O casal anfitrião escolheu como sítio ideal, um cantinho junto ao riacho e a comissão ditou a sua sentença, que é como quem diz, orientou a construção da capoeira.

O mais importante seriam os poleiros. Em cima o poleiro que seria para o galo, que por sua vez deveria ser uma figura imponente, de crista bem levantada para impor o respeito.

Nos poleiros imediatamente abaixo, ficariam os frangos e as galinhas de raça, bem alimentados para darem bons churrascos e boas canjas.

No chão, uns 'pitos' e umas 'pitas', que isto da arraia miúda ter direito a poleiro é uma 'festa' para outras capoeiras.

Nas laterais e mais resguardados, estariam os aposentos das poedeiras, a quem caberia a tarefa de pôr ovos - alguém tinha que produzir alguma coisa naquela capoeira - .

Há! e para finalizar não podiam esquecer os garnisés. Uns franganotes pequenitos que só sabem refilar, mas que servem de guardas contra invasores.

O nosso casal de amigos Alemães, seguiu à risca as recomendações e como resultado exibiram uma belíssima capoeira portuguesa.

Nem o sr. vigário, que fez questão de benzer aquele exemplar de arquitetura rural, resistiu à tentação de exclamar

- É uma capoeira portuguesa... com certeza.

 

Os dias foram passando  e o casal deixou de visitar a capoeira portuguesa. Compreende-se. A plumagem e o porte dos nossos galináceos, em nada podiam competir com a dos habitantes das outras capoeiras.

Uma verdade tem que ser dita. Haviam instruções rigorosas para que nada faltasse naquela capoeira. Ração em abundância e água fresca.

Alguns meses depois, o casal Alemão, num dos seus passeios pela herdade, distraiu-se com a conversa, e sem se aperceber  foi parar em frente da capoeira portuguesa.

Ficaram perplexos perante o que viram. Uma população que à custa de ser bem alimentada por estes beneméritos, criou hábitos sedentários, engordou e empurravam-se nos poleiros para ver quem ficava mais próximo da comida.

- Olha - exclamou o sr. Alemão para a esposa - . Olha o chão e vê o que eles fizeram com a comida que lhes demos.

- Um desperdício - respondeu a sra. Alemã abanando a cabeça negativamente -. As pobres criaturas nem se conseguem movimentar no meio de tanta estragação. Temos que tomar uma medida urgente.

- Sem dúvida. temos que mandar abater metade desta população - decidiu o sr. 'Schuba', preparando-se logo para iniciar a seleção para a mortandade.

- Ai não!. - Replicou a senhora, ao mesmo tempo que deitava um olhar de súplica ao marido -. Seria muito doloroso para mim, ainda mais sabendo que fomos nós os causadores desta situação, alimentando a capoeira sem nunca nos preocuparmos em exigir resultados.

Bom, para todos os efeitos, uma solução urgente teria que ser encontrada, para restabelecer o equilíbrio na capoeira portuguesa.

Optaram por um método natural e à 'troika' de um favorzito para o filho do 'Ti Manecas caçarreta', que estava a estudar na Alemanha, conseguiram que este todas as noites introduzisse na capoeira uma raposa que daria conta do excesso de galináceos.

As pobres das 'poedeiras', com tamanho susto, fecharam de tal modo o aparelho produtor de ovos - na giria, cú - que daquele orifício, nem ovos de canário conseguiriam sair.

E de pouco valeu o refilanço dos garnizés, que tiveram que se pôr à 'tabela' para não irem parar ao bucho da raposa.

Mas faltava encontrar o verdadeiro culpado desta balbúrdia.

O galo, claro está! o galo tinha falhado a sua missão. O chefe do galinheiro, aquele que deveria ser o garante da estabilidade e da convergência de opiniões, não tinha conseguido passar a sua mensagem. Tinha que ser destituido. Ele e não só, sentenciou o casal.

 

Santa ingenuidade, digo eu.

Preparem-se para uma surpresa. Todos sabemos o que irá acontecer.

O nova galo irá tomar posse do seu poleiro, e muito ciente do seu papel de lider irá cantar um discurso em tudo idêntico ao do seu antecessor.

Todas as manhãs à mesma hora, o mesmo "có-có-ró-có-có", sem se aperceber o coitado, que já foi ultrapassado à muito por um vulgar pi-pi-pi chinês.

Nos poleiros imediatamente abaixo, os galináceos de raça irão empurrar-se uns aos outros na tentativa de obter o lugar de destaque que os faça notados pelo galo e assim obter os seus favores. São uma raça de gabarolas emproados, que gostam de comer e beber do melhor, com um discurso muito convincente, mas na prática, uns fúteis.

Por fim, no chão ficarão como sempre os 'pitos' e as 'pitas'. A arraia miúda da capoeira, que se quiser sobreviver, tem que esgravatar no chão os restos dos banquetes dos finórios de cima, e levar nas costas a trampa que essa malta despacha cá para fora, no meio de uma qualquer cavaqueira sobre um qualquer  tema muito atual.

Quanto às galinhas poedeiras não há muito a dizer. A sua sina já está lida. Continuarão a abrir o cú, e de lá surgirá um dos produtos  orgânicos, utilizáveis na alimentação humana - elemento indispensável no pequeno almoço do simpático casal Alemão - e claro está, a única fonte produtiva de rendimento, da capoeira. Refiro-me claro está aos ovos.

Para o fim, deixei os pequenos garnisés, os tais refilões e ao mesmo tempo guardiões da capoeira. Acham que mudarão de atitude, para uma mais interventiva na defesa dos habitantes mais desfavorecidos da capoeira? Enganam-se. A cassete quando chega ao fim, é rebobinada e a mesma ladainha vai começar de novo.

 

Em conclusão vos digo.

 

O simpático casal Alemão ainda não percebeu verdadeiramente o tipo de estrutura social que compõe uma capoeira portuguesa.

 

Quem governa a capoeira não tem a noção dos problemas reais. Desde que haja milho com fartura, está tudo bem. Alguém o há-de pagar.

Os gestores da coisa pública, claro está, mais interessados em conquistar o melhor lugar no poleiro, não irão respeitar nada nem ninguém.

A arraia miúda, por muito que esgravate nunca irá sair da 'sepa torta'.

Os refilões, por uma questão de vistas curtas irão continuar a refilar até ficarem afónicos, e as poedeiras serão a minoria que continuará a trabalhar com um aparelho produtivo pouco digno.

 

Por muitas mudanças que façam, o resultado será sempre o mesmo.

 

É que... o problema está  mesmo na bicharada.

 

Jonas

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